
A primeira consulta de um doente com diabetes tipo 2 é um verdadeiro desafio.
Implica muito esclarecimento, mas sobretudo a quebra de alguns mitos.
Vários doentes quando confrontados com a problemática dos seus maus hábitos alimentares e estilo de vida apressam-se a dizer que a sua doença é genética.
A culpabilização exclusiva da genética como fator causal da diabetes tipo 2 é de facto um erro, e pode tornar-se um obstáculo à consciencialização dos doentes, ao reconhecimento do papel fundamental que o estilo de vida tem no desenvolvimento da doença.
Um doente que acredita, ou quer acreditar, que a diabetes tipo 2 é determinada exclusivamente pela sua herança genética, poderá ver a doença como uma fatalidade, e ser menos pró-ativo no seu processo terapêutico, nomeadamente no que diz respeito à mudança dos seus hábitos de vida.
Mas, qual é afinal a importância da genética na DM2?
A Diabetes tipo 2 têm comprovadamente uma base genética.
Mas será que a genética determina per se o desenvolvimento da doença?
Estudos realizados em gémeos monozigóticos (gerados a partir da fecundação do mesmo ovo), têm demonstrado a presença da doença em ambos em 60-100% dos casos.
Também é de facto uma doença que “corre” em certas famílias, mas aqui a história é um pouco diferente, e não tão linear.
Atualmente estão identificados vários genes e variações genéticas que parecem estar associadas à Diabetes tipo 2. É por isso que se diz que a Diabetes tipo 2 é uma doença poligénica. No entanto, não há 1 gene ou mesmo um conjunto de genes que determine por si só o desenvolvimento da doença.
Então o que é que determina?
A Epigenética.
A Epigenética é a interação entre o ambiente, ou seja, os hábitos cotidianos e estilo de vida do indivíduo e a sua genética.
De entre os vários fatores ambientais, a dieta e o exercício são primordiais.
Alguém com predisposição genética para Diabetes tipo 2 que seja sedentário e tenha uma má alimentação, por exemplo muito rica em hidratos de carbono e açúcares, está em grande risco de desenvolver Diabetes tipo 2.
Na consulta…
Na consulta de Diabetes, quando vêm familiares a acompanhar o doente e observo que há um problema de obesidade na família, ou se o doente tenta de alguma forma justificar a doença exclusivamente pela genética, tenho o dever de o esclarecer bem como à própria família.
Em tom de brincadeira mas procurando transmitir uma mensagem que é muito séria, digo-lhes:
“ Não estão condenados fatalmente à diabetes. O problema principal é comerem todos da mesma panela e passarem o mesmo tempo sentados no sofá.”
Frequentemente, devolvem um sorriso e reconhecem: “ Tem razão doutor, temos todos de mudar de hábitos lá em casa!”
Pontos chave:
- A diabetes tipo 2 é uma doença essencialmente do estilo de vida, que acomete mais frequentemente pessoas com predisposição genética.
- A adoção de um estilo de vida saudável, nomeadamente exercício físico regular e uma dieta adequada (por exemplo dieta Low carb: restrição de hidratos de carbono e açúcares), não só previne como pode reverter a doença.