Peptídeo C: um importante biomarcador de prognóstico e tratamento na Diabetes tipo 2

O que é o peptídeo C?

Os doentes com diabetes tipo 2 estão em geral familiarizados com os resultados analíticos dos níveis de glicose no sangue colhido em jejum (glicemia em jejum), ou da hemoglobina glicosilada ou glicada (HbA1c), a qual traduz a média da glicemia dos últimos 3 meses.

Mas há um outro parâmetro analítico que é desconhecido por muitos doentes, e que nos dá uma informação preciosa a respeito do prognóstico e tratamento da sua diabetes tipo 2- chama-se Peptídeo C (PepC).

O PepC é produzido no pâncreas, juntamente com a hormona Insulina, a partir da  mesma molécula – a Pró-insulina. 

Após a pró-insulina sofrer uma clivagem a hormona Insulina e o PepC (peptídeo formado por 31 aminoácidos) são produzidos em iguais quantidades.

Ou seja, os níveis de pepC traduzem a quantidade de Insulina que é produzida. Este aspeto é da maior relevância, e dá-nos muita informação, nomeadamente em relação à duração da doença, e à eventual necessidade de insulinoterapia.

Biomarcador prognóstico

A diabetes tipo 2 é uma doença que evolui ao longo de vários anos em 2 fases distintas. Numa primeira fase há uma hiperprodução de insulina (e de PepC) pelo pâncreas na tentativa de compensar o excesso de glicose em circulação no sangue, por isso se designa de fase hiperinsulinémica, uma verdadeira “prova de esforço” para o pâncreas.

Numa segunda fase, após vários anos em esforço, as células beta do pâncreas (onde são produzidos a insulina e o pepC) entram progressivamente em falência, ocorrendo um declínio progressivo da produção de Insulina e pepC.

Assim, é fácil de perceber que níveis de pepC normais ou elevados traduzem uma fase mais precoce da doença, enquanto níveis baixos traduzem uma fase mais avançada. Por outras palavras, o pepC é um indicador da duração da doença e portanto um marcador prognóstico.

…e terapêutico

Por outro lado o pepC informa-nos se o organismo produz insulina em quantidades suficientes ou se já carece de insulinoterapia. 

Geralmente, numa fase inicial observam-se níveis elevados de PepC o que significa que há uma elevada produção de Insulina. Nesta fase a insulinoterapia deve em geral ser relegada para última linha de tratamento. Para além da mudança do estilo de vida, nomeadamente a redução no consumo de Hidratos de carbono e açúcar, que deve ser o pilar terapêutico, devem ser priorizados fármacos que reduzam os níveis de glicose no sangue sem estimular ainda mais a produção de insulina que já é excessiva, ou fármacos que facilitem a acção da própria insulina que o organismo está a produzir em excesso (p.e. Metformina).

Quando o doente se encontra numa fase avançada da doença, em que há um declínio na produção de insulina (fase insulinopénica), em função da gravidade desse declínio poderá ou não haver indicação para tratamento com insulina.

Como interpretar os valores laboratoriais?

O intervalo de normalidade do pepC é: 1,1 a 4,4 ng/mL. 

Quando os níveis de PepC são < 1,1 ng/mL há uma elevada probabilidade do doente vir a iniciar insulinoterapia, particularmente para valores de pepC < 0,2 ng/mL. 

Porquê dosear o pepC e não a própria insulina?

Por tudo o que foi referido anteriormente é percetível que o PepC seja um parâmetro analítico que nos dá uma importante informação em relação ao prognóstico e tratamento dos doentes com Diabetes tipo 2.

Mas, poderá estar a questionar-se, porquê dosear o PepC e não a própria Insulina?

Embora o doseamento dos níveis de Insulina no sangue seja em muitos casos uma informação complementar importante, ele é menos fiável que o doseamento do pepC, por vários motivos:

  1. a libertação da Insulina no sangue é variável, ao contrário do PepC que é libertado a uma frequência constante;
  1. após a sua produção, a degradação do pepC no organismo é mais lenta do que a da Insulina, o que o torna um marcador mais estável do funcionamento do pâncreas (tempo de semi-vida do PepC: 20-30 minutos versus tempo de semi-vida da Insulina: 3-5 minutos);
  1. metade da insulina secretada pelo pâncreas é metabolizada na primeira passagem pelo fígado, enquanto que o metabolismo hepático do PepC é praticamente inexistente;
  1. em doentes tratados com insulina, o doseamento do PepC não é influenciado pelo tratamento.

No entanto, importa salientar que a maioria do PepC é metabolizado pelos rins, facto que pode tornar o seu doseamento  impreciso quando realizado em doentes com doença renal crónica. 

PONTOS CHAVE

  • O Peptídeo C é um importante biomarcador de prognóstico e de tratamento na Diabetes tipo 2; 
  • Os seus níveis traduzem a quantidade de insulina produzida pelo organismo de forma mais fiável que o doseamento da própria insulina;
  • O intervalo de normalidade do PepC no sangue é: 1,1 a 4,4 ng/mL;
  • Valores superiores ao normal podem traduzir a fase inicial da Diabetes tipo 2 (fase hiperinsulinémica);
  • Valores abaixo do normal podem traduzir uma fase avançada da Diabetes tipo 2 (fase insulinopénica); sendo que um PepC < 1,1 ng/mL indica uma elevada probabilidade do doente vir a iniciar insulinoterapia.

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