
A Insulino-resistência é uma condição patológica que se caracteriza pela “resistência” por parte das células do organismo à acção da hormona Insulina.
A consequência direta dessa resistência é o aumento na produção e secreção de insulina na tentativa de “vencer a resistência”, e portanto o aumento dos seus níveis circulantes (a Hiperinsulinemia),
Os níveis de insulina cronicamente elevados no sangue geram múltiplos problemas para a nossa saúde, de entre os quais a síndrome metabólica (obesidade, hipertensão arterial, triglicerídeos elevados e a diabetes tipo 2).
A Insulino-resistência duplica o risco de enfarte cardíaco e AVC.
A prevalência da síndrome metabólica em Portugal de acordo com o estudo PORMETS (publicado em 2017), varia conforme os critérios usados, atingindo 50% da população se usados os critérios da International Diabetes Federation (IDF).
Esta é a dimensão do problema. Metade da população adulta em Portugal, 1 em cada 2 adultos tem síndrome metabólica e portanto insulino-resistência.
Por isso, a suspeita e confirmação diagnóstica de insulino-resistência são prementes e devem acontecer o mais precocemente possível.
Geralmente são baseados na história clínica e antecedentes do doente, sinais clínicos, resultados laboratoriais e até exames de imagem.
Suspeita
Seguidamente estão listadas as diferentes situações que nos devem fazer suspeitar de Insulino-resistência. Como vai perceber a lista é vasta e diversa.
1. Estilo de vida: sedentarismo; tabagismo; consumo de álcool, privação do sono; alimentação rica em hidratos de carbono e açúcares (particularmente os processados).
2. Antecedentes familiares de Diabetes tipo 2.
3. Antecedentes pessoais de: Diabetes gestacional; pré-diabetes ou diabetes tipo 2; episódios de hipoglicemia (principalmente após as refeições).
4. Medicação: a própria Insulina; corticoesteróides (“cortisona”); anticonceptivos orais (particularmente os progestativos); anti-hipertensores (diuréticos e beta-bloqueadores); alguns anti-virais; a ciclosporina.
5. Exame Físico:
- Excesso de peso/obesidade (IMC >25)
- Aumento do perímetro abdominal (Homens: >94cm; Mulheres >80cm)
- Hipertensão arterial (> 130/85 mmHg)
- Acantose nigricans (pele espessada e com pigmentação escura; mais frequente na região cervical e pregas (ex. axilas))
- Sinais de hiperandrogenismo: como acontece na síndrome do ovário poliquístico (alterações mentruais, infertilidade, acne, hirsutismo)
- Características acromegalóides (“gigantismo”)
- Xantelasmas ou xantomas (depósitos de gordura localizados na pele, pálpebras ou tendões)
6. Análises laboratoriais:
- Triglicerídeos elevados (>150mg/dl)
- HDL-c baixo (< Homens <40mg/dl; Mulheres <50mg/dl)
- Diabetes tipo 2 ou pré-diabetes (glicemia em jejum >100; HbA1c >5.6%; ou às 2h na PTOG >140mg/dl)
- Ácido úrico elevado
- Critérios de insuficiência renal e/ou hepática
7. Outros distúrbios endócrinos (em que há excesso de secreção hormonal):
- Hormona de crescimento: Acromegalia (“gigantismo”)
- Catecolaminas (Feocromocitoma)
- Insulina (Insulinoma)
- Hormona tiroideia (Hipertiroidismo)
- Hiperandrogenismo (Síndrome do Ovário Poliquístico)
8. Várias doenças inflamatórias crónicas que tendem a reduzir a sensibilidade à insulina.
9. Presença de auto-anticorpos contra a insulina ou contra os receptores da insulina, frequentemente associados a Doenças Auto-imunes.
10. Síndromes genéticas de insulino-resistência (ex. Leprechaunismo, Sindrome de Rabson-mendenhall, algumas situações de lipodistrofia, a Ataxia de Freidreich, a distrofia miotónica e a Síndrome de Alstrom).
11. Exames de Imagem: Esteatose hepática não-alcoólica (“fígado gordo”): acúmulo de gordura no fígado que pode ser detectado por exemplo através de uma ecografia abdominal.
Qualquer uma das situações atrás referidas deve fazer suspeitar de insulino-resistência.
O passo seguinte é confirmar o diagnóstico.
Diagnóstico
O teste padrão (goldstandard) é a técnica do clamp euglicémico hiperinsulinémico.
Basicamente, os níveis de insulina são mantidos elevados e a um nível constante através da sua administração intravenosa contínua.
Simultaneamente a glicemia é mantida em níveis normais (80-90mg/dl) também através da administração intravenosa de glicose.
Assim, a quantidade de glicose necessária para manter a glicemia normal de forma constante é a tradução direta da sensibilidade (ou resistência) do organismo à insulina.
No entanto, como é uma técnica que requer internamento (os doentes têm de ser monitorizados, para as concentrações de glucose e insulina e para funções vitais fisiológicas), com uma logística complicada e elevados custos, houve necessidade de desenvolver através de modelos matemáticos índices de insulino-resistência.
Esses índices são no fundo fórmulas que incluem o valor da glicemia e da insulina em jejum, e que traduzem com um elevado grau de fiabilidade a sensibilidade à insulina pois demonstraram uma forte correlação positiva com os resultados do teste padrão, e permitem assim confirmar o diagnóstico de insulino-resistência através de uma simples colheita de sangue.
Um exemplo é o Homeostatic model assessment (HOMA), que resulta do produto dos valores de jejum da glicemia e da insulina dividido por 22,5.
Um resultado >2 é sugestivo de insulino-resistência.
Outro exemplo é dividir o valor de jejum da glicose pelo valor da insulina. Um resultado <6 é sugestivo de insulino-resistência.
O próprio valor da insulina em jejum quando elevado (>8 mU/L) também é sugestivo de insulino-resistência (alto risco se >25 mU/L), bem como uma razão triglicerídeos/HDL-c > 2,5 (mulheres) e >3,5 (Homens).
Pontos Chave:
- A insulino-resistência é uma condição patológica muito prevalente e que está na base de inúmeras doenças nomeadamente a diabetes tipo 2.
- A sua presença duplica o risco de Enfarte cardíaco e AVC.
- A suspeita de Insulino-resistência geralmente surge da integração de diferentes dados provenientes da história clínica, exame físico, análises laboratoriais e exames de imagem.
- O diagnóstico de insulino-resistência é em geral feito através de índices analíticos como por exemplo o Homeostatic model assessment (HOMA).