
É muito frequente numa primeira consulta eu ouvir 2 tipos de comentário por parte dos doentes:
- “ Andava tão bem até há pouco tempo atrás, não sei como “apanhei” agora Diabetes”
- “As minhas últimas análises estavam boas, só tinha o açúcar um bocado alto, mas nada de especial.”
É fundamental explicar à população em geral, que é muito mais inteligente e eficaz prevenir a chegada da doença do que correr atrás do prejuízo!
Por isso, vou falar-lhe de Pré-diabetes.
3 aspetos fundamentais:
- Importância e dimensão do problema
- Diagnóstico
- Tratamento
- Importância e dimensão do problema
Ninguém fica com Diabetes tipo 2 de um dia para o outro. Sabemos que em média o tempo de evolução até ao diagnóstico de diabetes é de 13 anos. E durante esse tempo o doente evolui num estado de pré-diabetes, também designada de Hiperglicemia intermédia, porque na verdade o que está a acontecer durante esse período entre outras coisas é o aumento progressivo da glicemia para valores intermédios entre o normal e valores diagnósticos de Diabetes. Por exemplo, seguindo os critérios da Associação Americana de Diabetes (ADA): valores de glicemia em jejum 100-125mg/dl, traduzem Pré-diabetes, mas o que muita gente não sabe é que esses valores já condicionam aumento de risco das complicações da diabetes, as neurológicas e microvasculares, alterações da sensibilidade, arritmia, alteração do trânsito intestinal, disfunção erétil, doença renal crónica; mas também as macrovasculares, como o enfarte cardíaco.
Para além de todos esses riscos, aumenta de forma significativa o risco de evoluir para a própria Diabetes tipo 2.
De acordo com o documento da Direção Geral da Saúde do Plano Nacional para a Diabetes de 2019, ¼ dos adultos Portugueses têm Pré-diabetes.
A ADA estima que cerca de 70% dos pré-diabéticos irão em algum momento evoluir para Diabetes tipo 2.
Não é portanto de estranhar que Portugal tenha uma das mais elevadas prevalências de Diabetes da Europa (Prevadiab (2009):11.7%; Observatório Nacional (2015): 13.3%; Relatório da OCDE (2018): 9.9%).
- Diagnóstico
Varia de acordo com as diferentes entidades, mas os critérios geralmente usados em Portugal são os da ADA:
- Glicemia em jejum: >100 mg/dl;
- HbA1c (valor que traduz a média da glicemia nos últimos 3 meses): 5.7-6.4%;
- Prova de Tolerância à Glicose Oral (PTGO) (medição da glicemia 2h após a ingestão de 75g de glicose), uma espécie de “prova de esforço para o pâncreas”: 140 – 200mg/dl.
Provavelmente muita gente, eventualmente você, tem valores de glicemia em jejum de “cento e poucos” e continua a achar que está tudo bem… mas não é verdade.
Para além destes critérios, chamo a atenção para a questão da Pré-diabetes poder ser durante muito tempo assintomática, e de existirem fatores de risco e outros sinais que nos devem fazer suspeitar da doença:
- Sinais de insulino-resistência ou síndrome metabólico: excesso de peso, obesidade, PA aumentado, Hipertensão arterial, Triglicerídeos elevados e HDL-c baixo, Síndrome do ovário poliquístico, pigmentação cutânea escura (acantose nigricans);
- História de diabetes gestacional;
- História familiar de diabetes;
- Sexo masculino, idade (>45 anos); raça negra
C) Tratamento
A boa notícia é que a Pré-diabetes é um estado potencialmente reversível. Como? Através de medidas de estilo de vida.
Muito rapidamente vou referir um dos estudos mais importantes e mais citados nesta área, é o ensaio clínico DPP (Diabetes prevention program) publicado na prestigiada revista científica: New England Journal of Medicine. Contou com 3200 participantes, o objetivo era comparar o benefício da medicação anti-diabética (metformina) versus medidas de estilo de vida em indivíduos com excesso de peso e Pré-diabetes.
Os participantes foram divididos em 3 grupos: grupo placebo (comparador); grupo tratado com metformina e o grupo tratado com intervenção no estilo de vida (dieta e exercício com o objetivo de uma perda ponderal > 5-10% do peso corporal).
Os resultados foram impressionantes!!!!!
Três anos depois do início do estudo:
O grupo tratado com metformina versus o grupo placebo reduziu o risco de Diabetes em 31%;
O grupo da intervenção no estilo de vida reduziu o risco de desenvolver Diabetes em 58%; sendo que para os participantes com >65 anos a redução foi de 71%.
Estes resultados foram obtidos independentemente da raça, género, ou condição económica dos indivíduos que participaram no estudo.
Portanto,
- Se tem excesso de peso ou Pré-diabetes comece já a mudar o seu estilo de vida;
- A alimentação low carb é sem dúvida uma excelente opção dietética;
- Exercício regular aeróbico preferencialmente complementado com treino de resistência (sempre adaptado a cada caso e se possível acompanhado por um profissional da área do exercício).
Com estas medidas é possível reduzir pelo menos para metade o risco de desenvolver Diabetes.