
Hoje em dia os doentes parecem entrar no consultório preocupados exclusivamente com uma questão: o valor do seu colesterol.
Acreditam que o valor de colesterol LDL (vulgarmente designado de “mau colesterol”), de forma isolada, irá determinar o seu futuro, e o seu prognóstico cardiovascular.
Alguns doentes já vão inclusivamente sugerindo o início de medicação, nomeadamente uma “estatina” (medicação que bloqueia a produção de colesterol no organismo).
Por falta de informação e até por desinformação, particularmente os doentes diabéticos tipo 2 acabam por sofrer uma enorme ansiedade pelos motivos errados. Perdem o foco dos restantes problemas associados que têm igualmente de ser abordados, mas mais do que tudo permanecem pouco esclarecidos relativamente a este tema, o que dificulta todo o processo terapêutico.
É necessário que o foco da atenção se centre no que a evidência científica nos revela ser mais importante no que respeita ao metabolismo das “gorduras” nos doentes com diabetes tipo 2, obesidade e síndrome metabólica: a Dislipidemia aterogénica.
Dislipidemia aterogénica?
Mas, qual é afinal o significado destes termos?
Simplificando,
Dislipidemia = perturbação do metabolismo, níveis/concentração das “gorduras” no sangue.
Aterogénica = promove a formação de placas de ateroma (placas que obstruem as artérias) e consequentemente o desenvolvimento de arteriosclerose (processo que está na base da maior parte das doenças cardio e cerebrovasculares).
Como diagnosticar a dislipidemia aterogénica?
A dislipidemia aterogénica é globalmente definida por 3 parâmetros analíticos:
- Triglicerídeos elevados (> 150 mg/dl);
- HDL-c baixo (Homens < 40 mg/dl; Mulheres < 50 mg/dl);
- LDL-c (não apenas os seus níveis plasmáticos, ou seja a sua concentração no sangue, mas também o seu tipo: na dislipidemia aterogénica as partículas de colesterol LDL são geralmente pequenas e densas, ou seja , penetram facilmente na parede vascular e são facilmente oxidáveis).
O que a evidência sugere relativamente à população de doentes diabéticos tipo 2, com obesidade, síndrome metabólica e insulino-resistência, é que é este padrão analítico, e não apenas o valor isolado do colesterol total ou do LDL-c, que contribui de forma significativa para o aumento no risco da pessoa vir a desenvolver um enfarte cardíaco ou um AVC.
Quais os valores ideais?
Na prática, o que se pretende é reduzir os níveis de triglicerídeos, preferencialmente abaixo dos 100 mg/dl e elevar os níveis do HDL-c (idealmente acima dos 60 mg/dl).
Os valores não devem ser analisados individualmente, o metabolismo das gorduras é um processo complexo, e estes parâmetros estão inter-relacionados.
Para além dos valores do LDL-c, é fundamental a análise da razão Triglicerídeos/HDL, pois esta tem maior valor preditivo de risco. Esta razão deve ser desejavelmente inferior a 2, mas idealmente o mais próximo de 1 possível.
Medicação ou mudanças no estilo de vida?
Claro que cada caso é um caso.
A decisão terapêutica deve ser sempre partilhada entre doente e médico assistente, e acima de tudo personalizada e adaptada a cada caso.
Haverão certamente doentes que vão necessitar de medicação para o resto da vida, como por exemplo os indivíduos que já tiveram um evento cardiovascular, como um enfarte cardíaco. Neste grupo de doentes, o benefício em termos de redução de risco de novo evento (a chamada prevenção secundária) está cientificamente comprovado, havendo portanto uma indicação formal para a prescrição de fármacos (p.e. “estatinas”). Poderão inclusivamente ser prescritos outros fármacos em associação (p.e. fibratos, ezetimiba, niacina, suplementos de omega-3) na tentativa de potenciar os benefícios do tratamento minimizando eventuais efeitos adversos dos diferentes medicamentos.
Por outro lado, um elevado número de doentes poderá melhorar os seus parâmetros analíticos e o seu estado de saúde apenas com mudanças no seu estilo de vida. E é este aspeto que nunca é demais ressalvar.
Na maior parte dos doentes com diabetes tipo 2, obesidade e síndrome metabólica, a base do tratamento passa por mudar o padrão alimentar e associar o exercício físico regular.
Dieta Low carb (uma excelente opção!)
Uma dieta Low carb é uma excelente opção para estes doentes, porque não só reduz de forma eficaz e significativa a razão entre os Triglicerídeos e o HDL (em mais de 50%), como melhora todos os outros fatores de risco da síndrome metabólica (Glicemia e a HbA1c; a Hipertensão arterial, o excesso de peso/obesidade).
Hoje fala-se em risco cardiovascular global, porque sabemos que o risco final de um doente resulta da soma dos vários fatores como um todo e não de cada fator individualmente.
Como a redução no consumo de hidratos de carbono e açúcares atua na base do problema (a resistência à insulina), o doente acaba por resolver não só a dislipidemia aterogénica como também vários outros problemas de saúde associados.